Nova controvérsia envolvendo a Indústria Farmacêutica – a prática de “ghostwriting”
A lista de escândalos envolvendo a Indústria Farmacêutica (IF) é longa. Como médicos e consumidores de Saúde, temos o dever de estar atentos e bem informados, para que não nos deixemos levar nem pela propaganda da Indústria, nem por denúncias sensacionalistas. A fim de refrescar a memória, vamos relembrar dois dos mais célebres escândalos envolvendo a IF, para então entrar no assunto do post: a descoberta da utilização de escritores profissionais (os chamados ghostwriters) para redigir artigos científicos, que posteriormente são assinados por médicos:
- Caso Merck-Vioxx: Aprovado em 1999 para o controle da dor e inflamação, o Rofecoxib (Vioxx) chegou a ser usado por 80 milhões de pessoas, gerando um lucro de 2.5 bilhões de dólares para seu fabricante, a Merck. Em 2004, a empresa retirou o medicamento do mercado, em meio a diversos estudos demonstrando um aumento significativo do risco de infartos do miocárdio e acidentes cérebro-vasculares (derrames). Dados posteriores confirmam que a empresa já estava ciente dos riscos desde 2001, mas “varreu a sujeira pra baixo do tapete”. Em março último, o Dr. Scott Reuben declarou que diversos estudos que ele havia produzido envolvendo o Vioxx tiveram os dados adulterados para melhorar a eficácia da droga. Veja aqui.
- Caso Trovan-Pfizer: Em 1996, a Pfizer conduziu um estudo clínico do antibiótico Trovafloxacina (Trovan) em Kano, a segunda maior cidade da Nigéria. A droga foi administrada a cerca de 100 crianças durante uma epidemia de meningite (11 das quais morreram). O estudo foi declarado ilegal por diversas razões: o governo da Nigéria não autorizou a pesquisa, os pais das crianças não assinaram o documento consentindo o estudo, a forma oral do antibiótico utilizado nunca havia sido testada em crianças, e o segundo antibiótico usado como controle foi administrado em doses menores do que as habituais, a fim de melhorar a performance da Trovafloxacina. Em 30/07/09, a Pfizer foi ordenada por uma corte nos EUA a pagar $75 milhões ao estado de Kano, a título de reparação. Veja aqui.
Agora, uma série de artigos no New York Times (veja aqui) desvenda uma prática que vem se tornando comum nos jornais médicos. No caso em questão, uma fabricante de remédios – a Wyeth – contratou uma empresa de comunicação (de nome DesignWrite) para redigir artigos científicos defendendo o uso da terapia de reposição hormonal (TRH) em mulheres na menopausa, que depois receberam a assinatura de médicos proeminentes. Vale lembrar que a Wyeth produz o Premarin e o Prempro, duas das medicações mais usadas na TRH.
Os 26 artigos levantados pela investigação foram publicados entre 1998 e 2005, em revistas médicas como o The American Journal of Obstetrics and Gynecology e o International Journal of Cardiology. Em todos eles, os benefícios da reposição hormonal foram hipervalorizados, enquanto que os efeitos colaterais e problemas foram diminuídos, mesmo após o surgimento de evidências de que a reposição aumenta o risco de câncer de mama invasivo, de problemas cardíacos e derrames. Em nenhum lugar aparece o nome da Wyeth ou da DesignWrite, apenas dos médicos, que devem ter ganho uma boa grana para emprestar seus nomes ao esquema. Fica a pergunta: quantos outros artigos que lemos todos os dias nas revistas e jornais médicos são escritos desta forma?
[...] um comentário » Em um post anterior (veja aqui) eu já havia levantado a bola sobre o problema de “ghostwriting” nos jornais médicos. [...]
Mais evidências de “ghostwriting” nos jornais médicos. « O Clínico Integrativo
setembro 23, 2009 em 11:35 pm